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Vovô de 63 anos acha nova profissão como boleiro em Flushing Meadows
Com cabelo grisalho e pique de garoto, Gerry Loughran rouba atenções
Por Alexandre Cossenza
Direto de Nova York
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Fabrice Santoro se prepara para sacar no primeiro game da partida contra Juan Carlos Ferrero. O boleiro estende os braços para o alto e mostra uma bolinha amarela em cada mão. O tenista francês, então, pede que o pegador de bolas fique parado. Santoro se aproxima, inclina a cabeça e olha para o cabelo grisalho do voluntário de 1,80m de altura. O francês, que diz ter 1,78m, mas na verdade tem perto de 1,70m, estica os dedos, toca nas têmporas do senhor e sorri.
A história aconteceu no ano passado e quem conta é Gerry Loughran, o boleiro mais velho do US Open. Hoje com 63 anos, o advogado aposentado, que ainda trabalha na área de mediação e arbitragem, está em sua terceira temporada na função e se diverte com as histórias curiosas que tem para contar desde que começou a trabalhar como pegador de bolas.
Casado, pai de duas filhas e avô de quatro crianças, Gerry senta-se na arquibancada da Grandstand para conversar com o GLOBOESPORTE.COM e explica que sua paixão pelo tênis, esporte que pratica até hoje, vem de longa data. A carreira como advogado de uma grande escritório em Manhattan, contudo, o impedia de acompanhar o esporte de perto. A ideia de ser boleiro veio quase por acaso, conta o vovô-boleiro.
- Estava vendo o jornal na TV, e minha mulher diz: "Olha isso! Eles fazem uma peneira enorme para os boleiros do US Open". Eu ri e disse: "Talvez faça isso quando me aposentar". O tempo passou, eu me aposentei e fiquei de olho no site do torneio para saber quando era a peneira.
Um dos netos gritou "Vai, vô! Pega a bola!". Minha mulher então explicou que eu era o avô das crianças. Um homem disse que não conseguia se concentrar mais no jogo. Ele estava só olhando para mim e vendo o que eu estava fazendo"
Gerry Loughran, boleiro
Gerry tentou a sorte, mas não ficou entre os escolhidos. Mesmo assim, recebeu uma carta da USTA, a federação americana de tênis, dizendo que poderia trabalhar em um torneio menor. O aposentado, então, estreou como boleiro no WTA de Forest Hills. "Os anos já se misturam na minha cabeça, mas acho que foi em 2005", diz. E sua primeira história curiosa na função veio antes de trabalhar em seu primeiro jogo.
- O diretor do torneio, Bob Ingersoll, falava com os boleiros e indagou se tínhamos alguma pergunta. Eu levanto a mão e pergunto: "Onde posso estacionar?". Ele ri e responde: "boleiros normalmente não dirigem" - conta, às gargalhadas.
No ano seguinte, Gerry foi novamente rejeitado na peneira para o US Open. Só em 2009 é que ele foi selecionado e pôde trabalhar em Flushing Meadows. Dois anos depois, veterano na função (a USTA considera veteranos todos que trabalham mais de um ano no torneio), o aposentado recebe US$ 8,25 por hora. "E estou fazendo hora extra para dar esta entrevista".
Gerry nunca trabalhou no Arthur Ashe nem no Louis Armstrong, os dois maiores estádios do US Open. Ele suspeita que não tenha a velocidade necessária para trabalhar em quadras maiores, mas a USTA pode estar apenas evitando que ele roube as atenções em uma partida com nomes famosos. Se acontecesse, não seria a primeira vez.
- Este ano, durante o qualifying, minha esposa, minhas duas filhas e meus quatro netos vieram me ver pela primeira vez. A melhor história que minha mulher contou é que um dos netos, em um momento, gritou "Vai, vô! Pega a bola!". E algumas pessoas na arquibancada se viraram e perguntaram "vô?". Minha mulher então explicou que eu era o avô das crianças. Um homem disse que não conseguia se concentrar mais no jogo. Ele estava só olhando para mim e vendo o que eu estava fazendo - diverte-se Gerry.
Estar no Ashe ou no Armstrong já não é tão importante para o vovô-boleiro. Ele diz que estar em um torneio como o US Open , vendo jogadores de perto e curtindo o ambiente, já é o bastante. Até jogos de juvenis o empolgam: "É uma chance de ver o futuro do tênis". Gerry só não sabe até quando conseguirá lidar com a exigência física da nova "profissão". Uma lesão no braço direito, o que usa para arremessar a bola, coloca em risco o futuro.
- Em um momento, não conseguia nem colocar o cinto de segurança. Fiz fisioterapia durante o verão inteiro, mas sinto dores às vezes quando atiro a bola. Vou fazer 64 em novembro. Acho que é um sinal do começo do fim. Tive muita sorte. Meus músculos resistiram, a ioga ajudou tremendamente. Sei que meu tendão de aquiles reclama toda a noite, tenho que colocar gelo nos dois joelhos a cada folga, mas não sei. Nunca se sabe o que vai acontecer nos próximos meses.
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